E de repente, parece que tudo virou comprável. Se não dá para comprar, vai ter que gastar com psicólogo. Logo, tudo implica em abrir a carteira; ou se paga por bem, ou se paga por mal, direta ou indiretamente. Cada um com seu preço, e que venha a negociação do que for a coisa da vez, ainda que a coisa seja... gente.
A ideia foi inseminada virtualmente na minha massa cinzenta depois de uma despretensiosa andança pelo mundo orkuteano, terras às quais cheguei há pouco - após graves ameaças de ficar definitivamente ilhada - e ainda caminho tímida por lá.
Aí encontrei uma comunidade assim, ó: "Não sou produto!". Me prontifiquei a entrar, na hora. A descrição vinha definindo o que seria a tribo dos desindustrializados: "Não estou à venda, não me rotule, não me use, não me empreste... não brinque comigo... não me detone...". Entre outras coisas mais. Me juntei à tchurma, mas não deixei de pensar que soava como redundante demais precisar dizer a alguém que não fizesse nada disso comigo. Não é óbvio?
Não é tão óbvio assim, mocinha pensante. E se alguém vira e canta pra mim "você não vale um real, mas pra mim não faz mal / eu não tô nem aí" ou, na pior das hipóteses, "você não vale nada, mas eu gosto de você"?!?!?!? Sento e choro. Mais pela música do que pela minha modesta cotação, confesso.
Depois começou a brotar outro pensamento: ninguém "te" faz de produto; você "se" faz um produto. Ai. É, a verdade dói. Dói bastante, em certos casos. Que atire a primeira cédula quem nunca quis colocar a culpa todinha em alguém por um episódio infeliz. Eu já. Só que, em algum momento, houve permissão da pessoa usada para que isso acontecesse, ainda que tácita.
Está certo que tem rolado um negócio de marketing pessoal, com inegáveis bons argumentos, onde a jogada é se promover e mostrar o quanto você é tal coisa e mais outra coisa. Ou entra no jogo, ou o capitalismo te dá um pontapé bem dado e some com você do mapa. E não tem comunidade que segure a era dos produtos de carne e osso.
Então a mulher vai à TV para dizer que a pensão do filho dela que está atrasada faz algum tempo é de 18 (dezoito) mil reais ao mês, e os olhos do cidadão brilham ao pensar na hipótese de uma rechonchuda indenização a cada vez que algo der errado. Cite-se Murphy, e vambora para o processo.
Vale dizer, nada contra a cobrança feita aos pais relapsos (pegando leve nas palavras). Quanto ao segundo exemplo, tenho um certo pé atrás com indenizações. Vi na reportagem o caso do menino que pediu o pagamento dos anos de carinho negados pelo pai que se separou da mãe. A argumentação não vingou, no final das contas.
E se os pais resolvem mandar a conta? Digo, os bons pais? Cada fralda trocada: cinco reais. Cada noite de sono perdida por causa da febre: vinte reais. Cada noite esperando voltar da farra: essa deve valer uns vinte e cinco. E o povo valendo um real, ou mesmo NADA, comofas pra pagar?
É até engraçado ver comercial de cartão de crédito (!) dizendo que certas coisas não têm preço.
Alguém se atreve a responder às perguntas do Jota Quest na letra de La Plata? Afinal:
"Quanto vale o amor?
Quanto vale então
Fazer das tripas coração?
...
Quanto vale a dor?
Quanto vale a culpa
E um pouquinho de atenção?"
Quanto vale então
Fazer das tripas coração?
...
Quanto vale a dor?
Quanto vale a culpa
E um pouquinho de atenção?"
Eu tenho medo das respostas.
1 comentários:
haha... realmente, se os pais resolvessem mandar a conta muitos filhos estariam endividados por aí...
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