Ontem soltaram numa das minhas janelas de papo no MSN um "Fica remoendo as coisas, Tami?". Hoje fico sabendo que trinta do sete é dia das desculpas.
Confesso não ser nenhuma Calcutá da vida em matéria de perdão. Não esqueço tão facilmente as coisas, sejam boas ou más. Pura - e péssima - mania de ruminar os fatos até encontrar algo que seja minimamente capaz de despistar minha atenção e me dar por satisfeita em relação à picuinha inicial.
Bom, não é questão de querer que o fulano escavador da minha fossa coma o pão preparado pelo diabo, com direito a almoço e jantar, nem que carregue água na peneira para ouvir um "desculpado". Penso que o mais digno depois de ferir alguém, sabe-se lá em quais proporções, seja um pedido de desculpas, apenas duas palavras, um "me desculpe" maduro o suficiente para entender que um acato nem sempre vai significar um retrocesso às coisas tais como eram antes da batata assar. A interpretação literal do ato leva a crer que des-culpar alguém é retirar-lhe a culpa. Seria como pegar a folha já toda rabiscada e virar o lado limpo pra cima. Soa leviano dizer que aquele papel está novinho em folha. A página, sim; o papel, não. As desculpas servirão para ocultar os rabiscos, mas eles existem. Vez ou outra há de se pensar que "se" eles não estivessem lá, sobraria mais espaço para fazer um poema. Ou um desenho bonito, quem sabe. Mesmo que os rabiscos não sejam jogados na cara do errante, já que estão ocultos, não há como fazer voltar os ponteiros até o momento em que nem tinham sido feitos. Questão de história. Então o melhor, a essa altura, é classificar desculpas, na medida do bom senso. Uma coisa é você desculpar a cotovelada de um desastrado, ou mesmo seu irmão por uma briguinha aparentemente inócua, mas que rendeu boas caras amarradas. Outra, é perdoar quem tirou a vida de alguém muito querido "de graça". Até que ponto se des-culpa? Afinal, "se um pedido de desculpas tivesse o poder de absolver todos os transgressores, jamais em minha vida perdoaria a quem perdoa", por David Saleeby. Se é perfeitamente compreensível que a ausência de desculpas iria emperrar rapidamente a vida em sociedade, já que um errinho seria "mortal" em qualquer relação, também seria insustentável viver socialmente com o desprezo de consequências. Tenho predileção descarada pela hipótese de que perdoar é admitir que erros acontecem, que as pessoas fazem burradas, intencionais ou não. Pensando assim, até exala mais humildade desculpar do que fazer um pedido de desculpas, quando o desculpante baixa a guarda, assume que ele próprio é passível de cometer a mesma falha e permite condições envoltas por dignidade para que o errante repare aquilo de alguma forma.
Complicado mesmo é quando desculpante e pretendente a desculpado estão no mesmo corpo. Qual o valor de mil perdões alheios, se a própria pessoa tem lá dentro dela que nunca poderia ter errado? Melhor se candidatar a Deus.
Se a vida é um livro que se compra em branco, a única coisa certa de vir grafada é um cantinho de título "ERRAMOS", que necessariamente será preenchido. As desculpas servem para que cada um acolha seus próprios erros como aprendizado, e se lembre de que todos têm seu cantinho negro, ainda que não já não seja possível se reunir à mesma mesa.
Confesso não ser nenhuma Calcutá da vida em matéria de perdão. Não esqueço tão facilmente as coisas, sejam boas ou más. Pura - e péssima - mania de ruminar os fatos até encontrar algo que seja minimamente capaz de despistar minha atenção e me dar por satisfeita em relação à picuinha inicial.
Bom, não é questão de querer que o fulano escavador da minha fossa coma o pão preparado pelo diabo, com direito a almoço e jantar, nem que carregue água na peneira para ouvir um "desculpado". Penso que o mais digno depois de ferir alguém, sabe-se lá em quais proporções, seja um pedido de desculpas, apenas duas palavras, um "me desculpe" maduro o suficiente para entender que um acato nem sempre vai significar um retrocesso às coisas tais como eram antes da batata assar. A interpretação literal do ato leva a crer que des-culpar alguém é retirar-lhe a culpa. Seria como pegar a folha já toda rabiscada e virar o lado limpo pra cima. Soa leviano dizer que aquele papel está novinho em folha. A página, sim; o papel, não. As desculpas servirão para ocultar os rabiscos, mas eles existem. Vez ou outra há de se pensar que "se" eles não estivessem lá, sobraria mais espaço para fazer um poema. Ou um desenho bonito, quem sabe. Mesmo que os rabiscos não sejam jogados na cara do errante, já que estão ocultos, não há como fazer voltar os ponteiros até o momento em que nem tinham sido feitos. Questão de história. Então o melhor, a essa altura, é classificar desculpas, na medida do bom senso. Uma coisa é você desculpar a cotovelada de um desastrado, ou mesmo seu irmão por uma briguinha aparentemente inócua, mas que rendeu boas caras amarradas. Outra, é perdoar quem tirou a vida de alguém muito querido "de graça". Até que ponto se des-culpa? Afinal, "se um pedido de desculpas tivesse o poder de absolver todos os transgressores, jamais em minha vida perdoaria a quem perdoa", por David Saleeby. Se é perfeitamente compreensível que a ausência de desculpas iria emperrar rapidamente a vida em sociedade, já que um errinho seria "mortal" em qualquer relação, também seria insustentável viver socialmente com o desprezo de consequências. Tenho predileção descarada pela hipótese de que perdoar é admitir que erros acontecem, que as pessoas fazem burradas, intencionais ou não. Pensando assim, até exala mais humildade desculpar do que fazer um pedido de desculpas, quando o desculpante baixa a guarda, assume que ele próprio é passível de cometer a mesma falha e permite condições envoltas por dignidade para que o errante repare aquilo de alguma forma.
Complicado mesmo é quando desculpante e pretendente a desculpado estão no mesmo corpo. Qual o valor de mil perdões alheios, se a própria pessoa tem lá dentro dela que nunca poderia ter errado? Melhor se candidatar a Deus.
Se a vida é um livro que se compra em branco, a única coisa certa de vir grafada é um cantinho de título "ERRAMOS", que necessariamente será preenchido. As desculpas servem para que cada um acolha seus próprios erros como aprendizado, e se lembre de que todos têm seu cantinho negro, ainda que não já não seja possível se reunir à mesma mesa.
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